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ENSINAMENTOS
Ensinamentos dos Grandes Mestres
 
 
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JANGÖN KONGTRÜL LODRÖ THAYE [1813-1899]


Conselhos

Você, homem preocupado e incorrigível,
Cujas palavras parecem ser verdadeiras e não são,
Cuja boca é como o sol que raia sobre o reino,
Mas em cuja ação, encontramos apenas escuridão.

Você, homem falador e pueril, tão pronto para falar que
Tudo o que vem à cabeça é logo posto em palavras,
Mas você jamais praticou o que diz;
E quando age, pratica muitas maldades.

Você, com muitos sonhos e projetos,
Que sem ter iniciado uma tarefa, parte para a segunda;
Que quando é conceituado, quer ainda mais fama;
Quando é humilde, quer ser conceituado.

Você, homem medíocre, à mercê de prazeres e dores,
Que palavras ou louvores enchem de vaidade;
Que comentários ou críticas atingem defeitos ocultos;
Que sensações, agradáveis ou desagradáveis, deleitam ou repugnam.

Você, homem frívolo, cuja alegria dura pouco,
Quando está feliz, sente-se como um bodhisattva;
Quando está infeliz, parece uma víbora ferida;
Mas sempre você é como um tendão ressequido pelo fogo.

Homem vil, muito bem relacionado,
Você se afasta pouco a pouco dos velhos amigos
Em busca de novos ou dos que faltam conhecer;
Quando acolhidos por eles, não confia em nenhum.

Homem desprezível, sempre acompanhado de amigos à mesa,
Quando sua barriga está cheia, você ri, sente-se capaz e sagaz;
Quando tem fome, perde pudor e vergonha
Sem medir as conseqüências de seus atos.

Concupiscente e lascivo,
Você procura meninas bonitas;
Sua mente se imobiliza perante grande riquezas;
Sua mesquinhez se imobiliza quando um mendigo pede uma esmola.

Homem ignorante, presunçoso,
Se abordado por um homem justo, você não dá ouvidos;
Se mentiroso, não se envergonha;
Se trapaceiro, você não tem piedade.

Desde as primeiras vidas, você carrega um fardo de malvadez;
Desde sempre foi atraído pela negatividade de amigos e emoções.
Agora que você conseguiu um precioso corpo humano
E conheceu o Dharma de Buddha, seu destino está em suas mãos.

Forjando o ferro duro, conseguimos moldá-lo;
Fundindo a rocha dura, fabricamos jóias;
Arando a terra dura, preparamos as colheitas;
Mesmo o gado bravo é amansado, e leva homens e carga.
Filho do homem que compreende a linguagem,
Se o fundo do seu coração não apodreceu,
Não será difícil chegar ao fim do Caminho.

Quando você tem liberdade de escolha, cai sob a influência de outros
E exaure a sua vida preparando-se para praticar o Dharma.
Sequioso de comidas e roupas,
Estudo, reflexão e meditação sobre o Dharma são protelados.
Procurando defeitos nos que lhe são mais queridos,
Seus votos e samaya são quebrados.
Sempre num bate boca ocioso,
Suas orações e recitações se perdem para sempre,
Seus pensamentos são cada vez mais vazios,
Os estágios de geração e perfeição se apagam e somem no céu,
Nada do que você faz merece alusão,
Nada de significativo nas suas intenções.

Contudo, agora, gente assim como eu, monges nos seus hábitos,
Meditantes tendo em mãos seus malas,
Grandes yogis cujas mentes não se mantêm no seu estado natural,
Homens vestidos de lamas, praticando rituais em aldeias em troca de ofertas.
Ainda que, com a graça das Três Jóias,
O estômago esteja cheio, você padece interiormente.
As roupas são atraentes, mas não prestam serviço à mente.
Possuindo tudo o que quer, a fortuna não lhe traz benefícios.
Passando esta vida em estado de felicidade, na outra você sofrerá.

Porque o Dharma que é benéfico tanto agora como para sempre,
Ainda que haja quem o explique, não há ninguém que o ouça;
Ainda que haja quem o ouça, não há ninguém que o compreenda;
Quando compreendem em parte, são poucos os que praticam;
Entre os que praticam, são raros os que chegam ao fim;
Entre os que podem explicá-lo, são ainda mais raros os que praticam.

Homem, cujo karma inferior se revela no que quer que faça,
Como quer que o miremos, vemos a decrepitude de uma idade decadente.
Nos tempos que correm, se você completa uma única ação condizente com o Dharma,
Você é digno de ser chamado homem
E realiza a sua aspiração imutável e irreversível.

Impressionado com o seu próprio e surpreendente comportamento, assim como o dos demais nestes tempos decadentes, sentindo náuseas e vontade de chorar perante esta nuvem turbulenta de indecisão, [Jamgön Kongtrül] Lodrö Thaye [1813-1899] proferiu espontânea e livremente estas palavras na solidão de uma montanha.

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O Relacionamento entre Mestre e Discípulo

A Explicação do Relacionamento entre Mestre e Discípulo, Como Seguir o Mestre, e Como Ensinar e Seguir o Dharma.

Enquanto [permanecer no mundo, é difícil ouvir] o ensinamento do Vitorioso, que é a fonte de benefício e felicidade. Quando entrar [no ensinamento], com o objetivo de fazer com que o seu lazer e oportunidade sejam dignos, no início procure e então siga o mestre de sabedoria.
Seguindo [mestres] inferiores, você vai degenerar; seguindo aqueles que estão no mesmo nível, você continuará o mesmo. Seguindo alguém superior, você obterá a santidade. Portanto, você deve seguir alguém superior a você.
Procure a justificativa [para seguir um mestre de sabedoria] através das escrituras, do raciocínio e do exemplo.
As categorias gerais [de mestres de sabedoria] são: a pessoa comum; o bodhisattva; a emanação [nirmanakaya] e o completo [sambhogakaya], que estão relacionados com as quatro circunstâncias próprias.

As características do [mestre de sabedoria] que é uma pessoa comum são [dadas como] oito, quatro ou duas boas qualidades.
As oito boas qualidades são: possuir a moralidade do bodhisattva; ser muito instruído no Bodhisattva Pitaka; ter alguma realização pessoal; ser totalmente compassivo e amoroso; ter coragem; ser paciente; ser sem tristeza; ser hábil para usar palavras.
As quatro boas qualidades são: faz ensinamentos extensivos porque é muito instruído; corta as dúvidas dos outros por causa de sua grande sabedoria; é louvável porque se engaja na atividade de um homem santo; é capaz de mostrar as características reais tanto dos fenômenos afligidos quando dos completamente purificados.
As duas boas qualidades são: é sempre instruído no significado do Mahayana; e nunca abandonará a excelente conduta do bodhisattva, mesmo ao custo da própria vida.

As categorias específicas são o [mestre] pratimoksha, o [mestre] bodhisattva e o [mestre do mantra] secreto, explicados seqüencialmente.

Os cinco [tipos de mestre pratimoksha são]: o preceptor ou khenpo, o mestre [do ritual], o instrutor privado, o [mestre] de confiança ou de leitura, e o mestre [do monge noviço].
Eles são louvados como mestres que possuem moralidade; que conhecem os rituais do Vinaya; são compassivos para uma pessoa doente; têm seguidores puros; se esforçam para fazer benefício no Dharma e nas coisas materiais; e dão instruções oportunas.

Siga o mestre que domou [a própria mente]; [que reside] pacificamente; que pacificou [a delusão]; que tem nobres qualidades significantemente [maiores do que a suas]; que tem diligência; que, em [conhecimento das] escrituras, é rico; que realiza totalmente a talidade; que fala com habilidade; cuja natureza [é cheia de] cuidado; e que elimina a depressão.

Além disso, se ele for dotado com as doze qualidades de ser instruído e assim por diante, é ainda melhor. [As doze qualidades são: ser muito instruído; ser dotado de grande sabedoria; não se esforçar pelo ganho material; não se esforçar pela fama; ter bodhichitta; ter grande compaixão; ser tolerante com a dificuldade; ser tolerante com a depressão inferior; ter recebido muitas instruções orais especiais; ter sido liberado pelo caminho; ser hábil para ensinar apropriadamente cada família de seres; conhecer suas faculdades.]
O mestre-vajra é firme; [sua mente é] domada, inteligente, paciente e sem decepção. Ele conhece a prática do mantra do tantra; ele tem compaixão e bondade amorosa pelos outros; ele é instruído [nas escrituras]. Ele completou os dez pontos essenciais, é hábil na atividade [de desenhar a] mandala e sabe como explicar o mantra.

Alternativamente, [o mestre do voto Vajrayana] tem os três tesouros, o rio completo [das iniciações], avidez para procurar os vasos adequados. Ele é sábio no tantra, dotado na atividade [do ritual] e mantém o [sinal de] realização.
Resumindo, ele tem a linhagem [inquebrantável], samaya [não enfraquecido], instruções orais especiais, e sabe o significado dos tantras. Dos três tipos, o [mestre que é um] monge completamente ordenado é o melhor.
Em particular, o "mestre glorioso" é capaz de gerar no fluxo mental [do discípulo] a união e a sabedoria primordial indestrutível.
Extraviar-se das características [acima] é ter a falha [de não ter um mestre de sabedoria qualificado]. Abandone [tal mestre]. Também, é raro que todas [as qualidades] sejam completas. [Portanto, deve-se] tomar um mestre com as mais nobres qualidades.
Alguém que é um vaso [adequado] para os votos de pratimoksha é [uma pessoa] sem obstáculos aos votos.
O discípulo dotado com as seguintes [características] deve ser conhecido como sendo dotado do atributo da diligência e deve permanecer nos votos [de pratimoksha]: devoção ao mestre; toma corretamente o código moral; concentração meditativa; diligência na recitação; uma [mente] ordenada e disciplinada; e paciência.
Ser um vaso para o voto de bodhisattva é ser dotado com fé, compaixão e um intelecto [para realizar a vacuidade]; aceitar realizar as práticas; não procurar o benefício da paz apenas para si; diligência; e deleite em ouvir sobre a vacuidade.
Além destas [características explicadas acima], o vaso adequado para o mantra [secreto] é devotado ao mestre; é tantricamente capaz; tem um intelecto vasto; é diligente no samaya e na realização.
Abandone as falhas. Quanto ao [discípulo com] uma mistura [de falhas e qualidades nobres, o mestre] deve-se tomar conta daquele que é dotado de fé e assim por diante.
O mestre e o discípulo, que são como jóias preciosas, devem examinar seu relacionamento.
[Com uma atitude que] deseja a liberação, [siga o mestre de sabedoria ao se aplicar em termos de] coisas materiais, honras, respeito e prática.
Ao confiar no mestre de sabedoria presente - que tem conduta pura; que é puro, não-adulterado, completo e puro - vejo-o como o testemunho da liberação do sofrimento. Assim foi feito pelo Vitorioso.
Além disso, há muitas vantagens de se seguir o amigo [espiritual].
O amigo prejudicial é de temperamento ruim, de pouca visão pura, grande no dogmatismo; mantém [sua própria visão] como a mais elevada, louva a si mesmo e denigre os outros.
Deve-se reconhecer o obstáculo de Mara e conquistá-lo com os antídotos.
Gere a fé de mente clara, confiante e desejosa.
Quanto à preparação para a explicação do Dharma sagrado: o mestre deve fazer os arranjos, aniquilar a facção de mara e purificar seu comportamento.
O discípulo deve oferecer um presente, prestar atenção à sua conduta, meditar e cultivar um humor alegre.

Há três coisas a serem aprendidas quanto ao assunto principal.
O mestre de sabedoria deve ter as duas bondades e as três paciências. [As duas bondades são: a compaixão que deseja colocar todos os seres sencientes na iluminação; e a compaixão que explica o Dharma com o desejo de beneficiar a todos os seres sencientes. As três paciência são: a paciência com a fatiga de ensinar e de fazer trabalho difícil; a paciência com os questionamentos dos discípulos; e a paciência para responder aos argumentos dos outros.]

O mestre de sabedoria explica o Dharma utilizando as seis portas da explicação. [As seis portas são: o assunto que deve ser conhecido; seu significado; a causa para conhecê-lo; completo conhecimento; o resultado do conhecimento; e o conhecimento superior que é resultado do conhecimento.]
O mestre de sabedoria primeiro descreverá a explicação geral e específica do objetivo [do ensinamento].

Há duas partes para a sinopse que tem seis boas qualidades.
[As duas parte para a sinopse são: o significado, que é uma sinopse das palavras; e a sinopse individual. As seis boas qualidades da sinopse são: ela é fácil de compreender; é claramente posta em palavras; é expressa agradavelmente; é afirmada precisamente; a explicação é igualmente pesada entre os tópicos; e é facilmente lembrada.]

O significado das palavras é explicado em três termos: o assunto a ser explicado; o que significa; e como a explicação é feita. Primeiro procure o significado dependente de palavras.
Há dois pontos para a conexão: facilmente compreendido e conectado.

As respostas para as objeções serão suportadas pela escritura e pelo raciocínio.
Para grandes intelectos, explique usando ensinamentos profundos e extensivos. Para intelectos inferiores, explique usando palavras fáceis de lembrar, simples e fáceis de compreender. Depois corte, precisa e sutilmente, as conexões que são contraditórias.
Quanto aos que são covardes, eleve-os; se suas mentes estão excitadas ou sonolentas, faça-os abandonar estas falhas.
Remova as três falhas e as seis máculas do vaso, e assim por diante. [As três falhas são: não ouvir bem o ensinamento; misturar o ensinamento com os venenos da mente; não reter os ensinamentos. As seis máculas são: orgulho; falta de fé; falta de esforço; ter a mente distraída por objetos externos; ter a mente distraída por objetos internos; ser triste.]
Então estabeleça a percepção do paciente, do remédio e do médico.

Tanto o mestre de sabedoria quanto o discípulo devem praticar os ensinamento e ouvir, em possessão das seis perfeições.

Subseqüentemente, o mestre pede perdão pelas falhas e então dedica toda a virtude e a oferece extensivamente.

[As três coisas a serem feitas] pelo discípulo são: oferecer presentes, fazer uma prece de dedicação, fazer firmes a atenção e a vigilância.
[Em geral,] as vantagens de ter ouvido e contemplado [o Dharma são cinco. Em particular, as vantagens de] ouvir, explicar, compreender o significado, colocá-lo em prática e se misturar com o Dharma são ilimitados.
Isto termina o comentário sobre a primeira seção do volume dois, divisão cinco do Tesouro do Conhecimento, explicando As Características do Relacionamento entre Mestre e Discípulo, o Método de Ensinar e Ouvir o Dharma Sagrado.
(Jamgön Kongtrül Lodrö Thaye, 1813-1899)

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A Devoção que Move o Coração

Namo Guruve
As Preces de Apelo ao Lama Que Está Longe são conhecidas de todos. A chave da invocação de bênçãos é a devoção, motivada pelo arrependimento dos antigos modos de ser e pela renúncia ao samsara. Esta devoção não é uma simples repetição de palavras vazias, mas vem do fundo de nosso coração, da medula de nossos ossos e da convicção de que não há Buddha além do Lama. Com esta completa certeza, cantamos:

Lama, pense em nós.
Bondoso Lama-raiz, pense em nós.

Essência dos Buddhas dos três tempos,
Fonte do verdadeiro Dharma em escritura e em realização,
Mestre da nobre assembléia do sangha,
Lama-raiz, pense em nós.

Grande tesouro de bênçãos e de compaixão,
Fonte dos dois siddhis,
Atividade búddhica que concede o que quer que se deseje,
Lama-raiz, pense em nós.

Lama Amitabha, pense em nós.
Olhe para nós a partir da vastidão do dharmakaya, livre de concepções.
Vagamos no samsara pela força do karma negativo;
Faça-nos renascer em sua terra pura de felicidade.

Lama Avalokiteshvara, pense em nós.
Veja-nos a partir da vastidão do luminoso sambhogakaya.
Pacifique completamente os sofrimentos dos seis tipos de seres
E transforme totalmente os três reinos do samsara.

Lama Padmasambhava, pense em nós.
Olhe para nós a partir do lótus luminoso de Ngayabling.
Nestes tempos obscuros, proteja prontamente com a sua compaixão
Os discípulos tibetanos, todos os desamparados e sem refúgio.

Lama Yeshe Tsogyel, pense em nós.
Olhe para nós a partir da cidade das dakinis, o lugar de grande felicidade.
Leve a nós, que cometemos ações negativas,
Através do oceano do samsara, até a grande cidade da libertação.

Lamas das linhagens do terma e do kama, pensem em nós.
Olhem para nós a partir da vastidão da sabedoria primordial, união da aparência e da vacuidade.
Rompam a prisão escura de nossa mente confusa
E faça se levantar o sol da realização.

Onisciente Drime Özer, pense em nós.
Olhe para nós a partir da vastidão das cinco luzes espontâneas.
Ajude-nos a realizar a grande manifestação da mente, primordialmente pura,
E a completar os quatro estágios da ati-yoga.

Incomparável Atisha e seu filho do coração,
Dentre as centenas de divindades, olhem para nós a partir de Tushita.
Realizem no fluxo de nossas mentes,
O nascimento da bodhichitta, a essência da vacuidade e da compaixão.

Siddhas supremos, Marpa, Milarepa e Gampopa, pensem em nós.
Olhem para nós a partir do espaço da grande felicidade-vajra.
Façam-nos capazes de atingir o supremo siddhi do Mahamudra, a felicidade e vacuidade inseparáveis;
Despertem o dharmakaya na essência de nossos corações.

Senhor do mundo, Karmapa, pense em nós.
Olhe para nós a partir do espaço onde todos os seres, em números vastos como o céu, são criados.
Faça-nos ver que todos os fenômenos são como uma ilusão, sem existência verdadeira,
E a realizar a aparência e a mente surgindo como os três kayas.

Lamas das quatro grandes e das oito menores linhagens Kagyü, pensem em nós.
Olhem para nós a partir do reino das aparências puras que surgem de modo natural.
Clareiem a confusão das quatro situações
e levai-nos a completar a experiência e a realização.

Cinco Sakyas ancestrais, pensem em nós.
Olhem para nós a partir da vastidão do samsara e do nirvana, inseparáveis.
Ajudem-nos a tornar inseparáveis a visão, meditação e ação puras;
Levem-nos pelo caminho supremo do Vajrayana secreto.

Lamas do inigualável Shangpa Kagyü, pensem em nós.
Olhem para nós a partir do reino totalmente puro dos Buddhas.
Treinem-nos corretamente nos métodos da prática que traz a libertação;
Levem-nos a descobrir o caminho de não mais aprender, a união última.

Grande siddha, Thangtong Gyelpo, pense em nós.
Olhe para nós a partir da vastidão da compaixão sem esforço.
Faça-nos capazes de alcançar a disciplina que traz a realização da
Não-existência última, e a dominar o prana e mente.

Pai único, Dampa Sangye, pense em nós.
Olhe para nós a partir do espaço da suprema atividade realizadora.
Traga para dentro de nossos corações a bênção da linhagem
E faça com que surjam sinais auspiciosos em todas as direções.

Mãe única, Labkyi Drönma, pense em nós.
Olhe para nós a partir do espaço da Prajna Paramita.
Faça-nos capazes de cortar pela raiz o apego ao ego, fonte do orgulho,
E de ver a verdade da ausência do ego, além da concepção.

Onisciente Dölpo Sangye, pense em nós.
Olhe para nós a partir do espaço dotado de todos os aspectos supremos.
Ajude-nos a trazer para dentro do canal central o prana da transferência
E a alcançar o imóvel corpo-vajra.

Jetsün Taranatha, pense em nós.
Olhe para nós do espaço dos três mudras.
Ajude-nos a viajar sem obstáculos, o caminho secreto do vajra,
E nos leve a alcançar o corpo de arco-íris, a fruição de todo o espaço.

Jamyang Khyentse Wangpo, pense em nós.
Olhe para nós a partir do espaço da sabedoria primordial que sabe.
Clareie o obscurecimento mental da ignorância;
Aumente a luminosidade de nossa suprema inteligência.

Ösel Tülpe Dorje, pense em nós.
Olhe para nós a partir da vastidão das cinco luzes do arco-íris.
Purifique as manchas do bindu, do prana e da mente,
E leve-nos à iluminação do corpo-vaso pleno de juventude.

Pema Dongag Lingpa, pense em nós.
Olhe para nós da vastidão da felicidade imutável e da vacuidade, inseparáveis.
Faça-nos capazes de satisfazer perfeitamente
Todas as intenções dos buddhas e bodhisattvas.

Ngawang Yönten Gyatso, pense em nós.
Olhe para nós a partir da vastidão do espaço e da sabedoria primordial em união.
Possamos parar de tomar as aparências como reais;
Desenvolva a nossa capacidade de levar para o caminho tudo o que surgir.

Bodhisattva Lodrö Thaye, pense em nós.
Olhe para nós a partir do seu estado de amor e compaixão.
Faça-nos ser capazes de reconhecer todos os seres como sendo nossos pais amorosos;
Desenvolva a nossa capacidade de fazer o bem aos outros do fundo de nossos corações.

Pema Gargyi Wangchug, pense em nós.
Olhe para nós a partir da vastidão da grande felicidade e luminosidade.
Liberte os cinco venenos na forma das cinco sabedorias;
Que desapareça nosso apego dualista a perda e ganho.

Tenyi Yungdrung Lingpa, pense em nós.
Olhe para nós a partir do espaço onde samsara e nirvana são iguais.
Engendre a devoção genuína em nossa mente;
Leve-nos à realização e libertação simultâneas.

Bondoso Lama-raiz, pense em nós.
Olhe para nós a partir do lugar de grande felicidade no topo de nossa cabeça.
Leve-nos a encontrar a própria face do dharmakaya, consciência de nossa própria natureza,
E, nesta mesma vida, leve-nos à completa iluminação.

É lamentável que os seres sencientes como nós, que cometeram ações negativas,
Vaguem pelo samsara desde tempos sem início.
Embora experimentando um sofrimento sem fim,
Não sentimos arrependimento por um instante sequer.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que surja a renúncia do fundo de nosso coração.

Embora tenhamos alcançado um precioso nascimento humano livre e com recursos, o desperdiçamos em vão,
Constantemente distraídos pelas atividades desta vida vazia.
Quando se trata de realizar a grande meta da liberação, somos tomados pela preguiça,
E voltamos com as mãos vazias de uma terra cheia de jóias.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que façamos desta uma vida significativa.

Não há ninguém nesta terra que não vá morrer.
Agora mesmo, estão morrendo pessoas, uma após a outra.
Também nós, em breve, devemos morrer,
Porém, como insensatos, fazemos planos para viver por muito tempo.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que cortemos nosso hábito de planejar.

Seremos separados de nossos amigos mais chegados.
Outros desfrutarão da riqueza que guardamos qual avarentos.
Até o nosso corpo, que tanto estimamos, ficará para trás.
E a nossa consciência vagará sem direção nos bardos do samsara.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que compreendamos a futilidade desta vida.

À frente, a negra escuridão do medo espera para nos envolver;
Por trás, somos perseguidos pelo fogo vermelho e feroz do karma.
Os terríveis mensageiros do senhor da morte batem em nós e nos esfaqueiam,
E seremos obrigados a passar pelos sofrimentos insuportáveis dos reinos inferiores.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que sejamos libertados dos abismos dos reinos inferiores.

Escondemos dentro de nós uma montanha de erros;
No entanto, humilhamos os outros e apregoamos seus defeitos, ainda que sejam menores que a semente do gergelim.
Apesar de não termos sequer a menor das qualidades, nos vangloriamos de nossa grandeza.
Temos o rótulo de praticantes do Dharma, mas praticamos somente o não-Dharma.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que percamos o nosso orgulho e egocentrismo.

Escondemos dentro de nós o demônio do apego ao ego, que sempre nos leva à ruína.
Todos os nossos pensamentos fazem aumentar os venenos mentais.
Todos as nossas ações têm resultados não-virtuosos.
Nem mesmo chegamos a nos voltar em direção do caminho da liberação.
Lama, pense em nós, olhe para nós prontamente, com compaixão.
Abençoe-nos para que o apego a um "eu" seja extirpado pela raiz.

Um pequeno elogio nos faz felizes; uma pequena acusação nos faz tristes.
Com algumas palavras ásperas, perdemos a armadura de nossa paciência.
Ainda que vejamos aqueles que são desvalidos, a compaixão não surge.
Quando há uma oportunidade de sermos generosos, ficamos atados pela ganância.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoa-nos para que nossa mente e o Dharma sejam uma unidade.

Pensamos que o samsara vale a pena, quando não vale.
Abrimos mão de nossa visão mais elevada em troca de comida e de roupas.
Ainda que tenhamos tudo de que precisamos, constantemente queremos mais.
Nossas mentes são enganadas por fenômenos irreais, ilusórios.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que deixemos o apego a esta vida.

Incapazes de suportar a mais simples dor física ou mental,
Com uma coragem cega, não hesitamos em cair nos reinos inferiores.
Ainda que vejamos diretamente a lei infalível da causa e efeito,
Não agimos de forma virtuosa, e sim aumentamos nossa atividade não-virtuosa.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que cheguemos a confiar completamente nas leis do karma.

Odiamos os nossos inimigos e nos apegamos aos amigos.
Perdidos nas trevas da ignorância, não sabemos o que aceitar ou o que rejeitar.
Quando praticamos o Dharma, caímos no torpor, na sonolência e no sono.
Quando não praticamos o Dharma, somos inteligentes e nossos sentidos são claros.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoa-nos para que superemos nosso inimigo, os venenos mentais.

Por fora, parecemos verdadeiros praticantes do Dharma;
Por dentro, nossas mentes não se fundiram ao Dharma.
Escondemos nossos venenos mentais por dentro, como uma serpente venenosa;
No entanto, quando surgem situações difíceis, as faltas ocultas do mau praticante vêm à luz.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que possamos, nós mesmos, domar nossa mente.

Não reconhecendo nossos próprios erros,
Assumimos a forma de um praticante do Dharma, e nos entregamos a afazeres não-Dhármicos.
Estamos habituados aos venenos mentais e à atividade não-virtuosa.
Vezes e vezes surgem intenções virtuosas; vezes e vezes elas são cortadas.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que vejamos as nossas próprias faltas.

A cada dia que passa, mais e mais perto estamos da morte.
A cada dia que chega, nossa mente torna-se mais e mais rígida.
Embora sirvamos ao lama, nossa devoção obscurece gradativamente.
Nosso amor, afeição e olhar puro para com nossos amigos do Dharma diminuem.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que domemos nossa mente obstinada.

Embora tenhamos tomado refúgio, gerado a bodhichitta e feito preces,
A devoção e a compaixão não surgiram no fundo de nosso ser.
A atividade do Dharma e a prática da virtude tornaram-se palavras vazias;
Nossas realizações vazias são muitas, mas nenhuma delas tocou nossa mente.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que tudo o que fizermos esteja em harmonia com o Dharma.

Todo sofrimento surge de querermos a felicidade para nós;
Embora nos seja ensinado que se atinge a iluminação fazendo o bem aos outros,
Geramos bodhichitta ao mesmo tempo em que nutrimos nossos próprios desejos.
Não fazemos o bem aos outros e, ainda mais, lhes fazemos o mal até inconscientemente.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoa-nos para que sejamos capazes de trocar a nós mesmos pelo outro.

Nosso lama é verdadeiramente a aparição do próprio Buddha, mas nós o consideramos um ser humano comum.
Chegamos a esquecer a bondade do lama ao nos dar instruções profundas.
Ficamos alterados quando não conseguimos o que queremos.
Vemos a atividade e o comportamento do lama através de um véu de dúvidas e de visões errôneas.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que, livres dos obscurecimentos, aumente nossa devoção.

A nossa própria mente é o Buddha, mas não reconhecemos isto.
Todos os conceitos são o dharmakaya, mas não nos damos conta disto.
Este é o estado natural não-produzido, mas não conseguimos sustentá-lo.
Esta é a verdadeira natureza da mente, pousada em si mesma, mas somos incapazes de acreditar nisto.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que a consciência espontânea seja liberada dentro de seu solo .

A vinda da morte é certa, mas somos incapazes de levar isto a sério.
O Dharma autêntico é certamente benéfico, mas somos incapazes de praticá-lo corretamente.
A verdade do karma, causa e efeito, é certa, mas não decidimos corretamente entre o que devemos rejeitar ou aceitar.
É necessário, com certeza, estar atento e alerta; tais qualidades, porém, não estão dentro de nós de forma estável, e somos levados pela distração.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que permaneçamos atentos e sem distrações.

Por força do karma negativo anterior, nascemos no final desta época degenerada.
Todas as nossas ações anteriores tornaram-se causa de sofrimento.
Os maus amigos lançaram sobre nós a sombra de seus atos negativos.
Nossa prática da virtude está corrompida pela tagarelice sem sentido.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que assumamos o Dharma com todo o nosso coração.

No início só existe o Dharma em nossa mente,
Mas no fim, o resultado é a causa do samsara e dos reinos inferiores.
A colheita da liberação é destruída pela geada da atividade não-virtuosa.
Nós, como selvagens, perdemos nossa visão última.
Lama, pense em nós, olhe prontamente para nós, com compaixão.
Abençoe-nos para que levemos, dentro de nós, o Dharma autêntico até a perfeição.

Abençoe-nos para que o arrependimento brote do fundo de nosso ser.
Abençoe-nos para que cortemos nosso hábito de planejar.
Abençoe-nos para que, do fundo de nosso coração, nos lembremos da morte.
Abençoe-nos para que desenvolvamos a certeza nas leis do karma.
Abençoe-nos para que nosso caminho seja livre de obstáculos.
Abençoe-nos para que sejamos capazes de empenhar-nos na prática.
Abençoe-nos para que coloquemos as situações difíceis dentro do caminho.
Abençoe-nos para que os antídotos, por seus próprios poderes, sejam totalmente eficazes.
Abençoe-nos para que surja a devoção autêntica.
Abençoe-nos para que vejamos a própria face da verdadeira natureza da mente.
Abençoe-nos para que a consciência espontânea desperte no centro de nosso coração.
Abençoe-nos para que as aparências ilusórias sejam completamente eliminadas.
Abençoe-nos para que alcancemos a iluminação em uma só vida.

Rogamos a você, precioso lama.
Bondoso lama, senhor do Dharma, a você clamamos com ardor.
Para nós, seres sem valor, você é a única esperança.
Abençoe-nos para que a sua mente se torne inseparável da nossa.

Alguns monges dedicados haviam pedido que eu escrevesse uma oração como esta, mas o tempo transcorreu. Foi então que, recentemente, Samdrub Drönma, uma praticante de nobre família, e Deva Rakshita, pediram-me sinceramente que compusesse este texto, e eu, [Jamgön Kongtrül] Lodrö Thaye [1813-1899], que nestes tempos degenerados sou apenas o reflexo de um lama, escrevi esta prece no grande lugar de retiro que é Dzongsho Desheg Dupa. Possam a virtude e a bondade aumentar!

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